Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


Fale Bem de Nós
Aqui nesse espaço você poderá fazer massagem no ego do povo da Cufa...
Fale Mal de Nós
Esse é o lugar aonde você descarrega todas as suas energias, podem falar, mas olha só...com respeito tá?





a Cufa
Projetos
Contato

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


 Email Cufa
  • 3 BOMBONS, 2 PESSOAS, 1 CÃO
  • Era uma quarta-feira de janeiro, pouco mais de meia-noite. Porto Alegre vazia, ruas desertas, e um silêncio raro defronte ao meu prédio. Assistia de forma desatenta os últimos jornais do dia, que passavam histórias de violência “comuns”. Apenas, as últimas do dia. Nem piores, nem melhores, só fatos bizarros de violação, que já não são capazes sequer de desviar a atenção do esmalte Tomate que eu passava nas unhas.
    Lembro-me que só três notícias me fizeram parar, por alguns segundos, minha “imprescindível atividade estética”:

    1 – Meninas do Rio que, em bailes funks cariocas, tiravam as roupas no palco, por “100 pila”, em desafios provocativos do MC, e aclamadas pelo público;

    2 – Uma adolescente gaúcha, cerca de 14 anos, que pulou a cerca de uma colônia penal, para fazer a entrega de maconha, crack e seu corpo a um preso. Passou a noite com ele, depois pulou novamente a cerca e foi embora, sem qualquer interferência da guarda.

    3 – E, por fim, uma entrevista exclusiva de traficantes do Complexo do Alemão a uma repórter do SBT, onde ameaçavam “fazer a bala comer”, caso o Estado insistisse em instalar um programa social em SUA favela. Touca ninja na cara, peito de fora e muitas tatuagens. Mas o que chamava a atenção mesmo eram os fuzis. Imensos! Ou, pelo menos, imensos em relação a eles, pois, atravessados no corpo, aparentavam ocupar quase 80% de sua extensão. Posso estar enganada, mas pelo tom de voz e características físicas, todos eram menores de idade.

    Pois é... Mas, eu estava com um desejo de chocolate incontrolável!!! Minha amiga, que passou pela sala, sugeriu que talvez fosse TPM. Sei lá, não resisti ao impulso, juntei umas moedas e zarpei rua deserta afora, em busca daquilo que, para mim, seria o maior prazer do dia.

    No portão de casa, parei alguns segundos, olhei pros dois lados e pensei: “Esquerda ou direita?”. Na direita, eu teria dali umas três quadras, um posto de gasolina – com chocolate!!! –, mas teria que passar por uma zona de prostituição e por uma quadra comum aos usuários de crack. Na esquerda, três quadras vazias, mas iluminadas e, provavelmente, o máximo que encontraria nelas seriam alguns moradores de rua e afins. Na equação da vida, venceu o lado esquerdo. “Indigente bêbado, eu derrubo com um bom pontapé, se necessário.”, pensei eu.

    No boteco, só tinha bombom. Mais especificamente, três bombons. Não sabia se acabaria com meu desejo enlouquecedor de chocolate, mas como se diz por aí: “É o que a casa oferece, no momento.”. Paguei os três e já sai com um inteiro na boca, até que... ops! Tropecei num guri, com um cachorro, que passava na porta do boteco, bem na hora em que eu tentava engolir aquele bombom inteiro. Pensei: “Ai, que saco! No mínimo, vou ter que dar meus bombons para esse guri. Meu altruísmo é uma merda, mesmo!”.

    O guri, de cerca de 1,5 m (eu tenho quase 1,80 m), magrinho, cabelo na cara e o indefectível bigodinho ralo daqueles meninos-homens da favela, me pediu umas moedas. Eu disse que não tinha e segui meu trajeto. Consciência pesou e ofereci bombom. Ele, então, começou a puxar assunto, perguntando se eu não teria uma coberta para doar, “pois a senhora vê, ‘sou morador de rua’”. Mas, estranhamente, não senti muita convicção naquela identidade que o guri se outorgava. Perguntei:

    “Qual teu nome?”
    “Gilson.”
    “Que idade tu tem, Gilson?”
    “15.”
    “Nossa, tu parece menos.”

    Gilson puxava uma cachorrinha suja, imunda, de forma muito cuidadosa.

    “Essa, eu encontrei na Farrapos agora. É de raça, uma poodle, mas acho que maltratavam ela, porque tá tudo em carne viva aqui atrás, ó, senhora. Eu vou pegar ela pra mim, né, neném? Vem, vem, neném!”

    Então perguntei:

    “Tu não tem casa?”
    “Tenho, mas é que eu fugi. Deu uns problema lá com meu padrasto. Eu sou de Santa Catarina. Mas, a assistente social, a dona Cleuza... a senhora conhece a Dona Cleuza?”
    “Não.”
    “Pois é... Ela tá vendo os meus documentos e a passagem pra eu poder voltar pra lá. Já, já eu volto.”
    “Mas o que que houve Gilson, tu brigou com teu padrasto?”
    “Não. Ele era estuprador.”

    Tomei um sustinho, pensei: “Ué, como esse guri descobriu que o padrasto era estuprador?”. Mas, antes que eu formulasse a pergunta, ele disparou, com força equivalente ao fuzil dos meninos-traficantes que eu havia visto na TV.
    “Peguei ele estuprando a minha irmã, de nove anos. Aí, eu dei duas facadas nele e saí, fugi , vim embora pra bem longe.”.
    Caralho! Pensei: “Esse guri deve ter sofrido.”.
    “Nossa, e aí? Agora a coisa já tá resolvida, não vai ter problema com ele quando tu voltar?”
    “Não, eu matei ele.”
    Não falei mais nada. Ofereci outro bombom e disse que ia dar uma coberta.

    Fui com ele até o portão do meu prédio. Subi, peguei coberta, uma camiseta, um boné, mochila, duas fatias de pão e dois iogurtes, que era o que eu tinha em casa. Quando voltei ali embaixo, o guri no degrau do meu prédio, acarinhando Neném, me lembrou Charles Chaplin com o cão. A vida imitando a arte.
    Entreguei tudo a ele e disse: “Se cuida.”.

    Com um sorriso no rosto, me agradeceu com grande abraço e disse que ele e Neném iriam dormir quentinhos essa noite.
    Subi pensando. Ser jovem no Brasil não é uma coisa fácil. Ser jovem pobre no Brasil, então, é uma epopéia de vida e morte diárias, onde, se já não bastassem os hormônios, os impulsos, tem-se que lidar com estímulos externos muito fodas. Fiquei pensando: “Se eu visse meu padrasto estuprando minha irmã, o que faria? 1 – Caía na noite e “bloqueava” da mente, com muito álcool e zoeira; festa louca, extravasando tudo em cima do palco de um baile funk?; 2 – Perdia o amor próprio, usando drogas pesadas? Assumia comportamentos de risco, transava com tudo e todos por “5 pila” ou uma fileira de pó?; 3 – Virava soldado do morro, atravessava um fuzil no corpo e virava “poderoso”, metendo bala nos vago, polícia e alemão?; 4 – Ou, impulsivamente, dava duas facadas no meu padrasto e depois fugia de casa, desesperada, sem rumo, sem lenço e sem documento, aterrorizada pelo medo da prisão futura e da morte passada?
    Decisão difícil, essa. No vestibular da vida, nem sempre há uma resposta certa. Mas, enfim, ela tem que ser dada, e eu dei a minha com o Gilson. E fui dormir.

    Fernanda Bassani

  • CUFA NO MUNDÃO
  • As redes sociais eletrônicas têm crescido e se propagado de forma acelerada nos últimos anos. Hoje em dia não tem cidade, que não tenha uma rede de internet. Desde uma grande metrópole até a mais longínqua cidade dos confins do Mundo possui essa ferramenta universal. Mesmo nas favelas brasileiras, onde o bicho da exclusão pega pesado, indicadores apontam que o acesso às redes sociais eletrônicas atinge a marca de 83 por cento, numa média geral.

    Toda essa informatização nos abre possibilidades de acessar informações que antes eram privilégio de uma elite, já que a fluidez com que as coisas trafegam na rede supera qualquer outro meio de comunicação. Agora a favela sabe do que rola no mundão... Mas também o mundão sabe do que rola na favela, ainda que por vezes ou a maioria delas de forma deturpada.

    A partir dessa democratização do universo digital, a CUFA constrói suas relações. Temos nas mãos uma ferramenta de difusão poderosa, que conseguimos saber o que o cara está fazendo nesse exato momento na Alemanha, na China ou em Madagascar, e que possibilita que eles saibam o que estamos fazendo aqui também.

    A LIIBRA (Liga Internacional de Basquete de Rua) e o RPB (Rap Popular Brasileiro) são projetos de favelados que conseguiram pegar essa mãnha. Estamos construindo ações em 27 estados brasileiros e em 12 países do mundo... Vai vendo. Dar visibilidade ao esporte e à cultura popular dos nossos guetos é dar voz às periferias de fato, é chegar junto na construção de ações para a favela e garantia de que elas dialoguem com a favela.

    E mais do que isso: nossas ações não se limitam aos espaços e às culturas das favelas. Democratizar e difundir culturas historicamente negadas aos que estão às margens da sociedade e levar para o centro as produções das periferias é uma maneira concreta e eficaz de diminuição das desigualdades que criam o abismo que existe entre a favela e o asfalto.

    É isso aí rapaziada... Mão na massa que o mundão nos aguarda!!!


    Comente esta página:
    * Nome:
       
    * E-mail:
       
    Bairro:
       
    * Estado:
       
    Cidade:
       
    País:
       
    Telefone:
       
    * Comentário:
    * Código de verificação:
     
      948
    Você conhece a CUFA?
    Estamos precisando de colaboradores nas áreas de : Consultoria Jurídica, Criação Gráfica, Comunicação, Produção e outras. Entre em contato conosco e venha ajudar! Seja Voluntário! Você pode ajudar a CUFA de casa!
    Favelas do Brasil
    Conheça a Lista...
    Dia da Favela
    4 de Novembro, Dia da Favela, é Lei n° 4.383/2006
    Livros
    Conheça alguns dos livros que retratam a vida em penitenciárias, favelas e as consequências do tráfico em diversas partes do Brasil.
     
    CUFA - Central Única das Favelas. Todos os direitos reservados.
    Direitos Autorais | Termos de uso