NAVIOS PIRATAS

Celso Athayde

 

            Hoje reli um artigo velho que escrevi, chamado “Economia Paralela”, em que eu fazia uma comparação entre as realidades do asfalto e da favela. É incrível como o tempo passa e tem coisa que segue atual. Me dei conta de que sou o preto brasileiro que mais vendeu livro, lembrei que sou o único preto a receber o prêmio “Empreendedores do Ano” da Revista IstoÉ Dinheiro — e acho importante ressaltar que não foi na condição de preto, mas de empreendedor e ponto final.

 

            Passou é um filme na minha cabeça. Lembrei do tempo em que morei na rua, do tempo em que pedia esmola. Do tempo em que morei no Pavilhão de São Cristóvão, um abrigo público, no Rio de Janeiro. Lembrei também dos anos que vivi na Favela do Sapo.

 

            Quando eu fazia baile de charme pra tentar ganhar uma grana, colidi com um determinado discurso afiado do movimento charme, pois eles diziam que estavam ali por amor e não por dinheiro. Depois enveredei pelo movimento Hip Hop e, de novo, me deparei com crises imensas, porque eu estava lá para ganhar meu dinheiro, enquanto o movimento jurava que estava lá por amor e jamais por grana.

 

            Daí eu entrei para o movimento negro. Criei duas revistas — Charme na Rua e Black Music — pra ganhar dinheiro, lógico. E, mais uma vez, precisei me engajar na guerra de narrativas. Os outros pretos me criticavam por esse desejo de ganhar dinheiro, porque pra eles era tudo pela ideologia.

 

            Há 19 anos, ajudei a criar a Central Única das Favelas (CUFA). Desde o começo, fui muito claro quanto aos nossos objetivos e métodos: era pra ser uma organização social com fins lucrativos mesmo. Não acreditava e não acredito que, em um país capitalista, seja possível mudança social que não gere economia e distribuição de riqueza. Não acreditava e não acredito que, em uma das sociedades mais desiguais do mundo, seja possível pensar soluções sem pautar o gigantesco abismo entre ricos e pobres, sem falar sobre divisão de riquezas.

 

            Eu era metralhado por essa visão — como se eu fosse um mercenário.  Eu apenas defendia que funcionários das ONGs precisam de salário, de gestão profissional, de formalização trabalhista e essas coisas só são viáveis onde há lucro, não era para dividir entre seus membros, mas garantir o desenvolvimento da instituição. Na minha visão, coletivo nenhum sobrevive sem que seus membros tenham condições de desenvolvimento pessoal.

 

            A alternativa a essa visão é uma eterna dependência dos políticos. Eu entrei para o movimento social formal e, desde logo, tive a impressão de que o seu modelo era frágil, ultrapassado, mas não havia ainda nenhuma alternativa de organização.

 

            Nos últimos anos, o Brasil passou por transformações que impactaram a favela de vários jeitos. A economia na base da pirâmide melhorou e uma nova realidade impõe novas formas de organização e reivindicação das bandeiras do movimento social.

 

            O fato é que, naquela época, meus amigos e amigas dos movimentos sustentavam com um orgulho quase santo que desprezavam o dinheiro. Nenhum argumento os convencia do contrário. Pior, até acirrava os ânimos. Talvez por isso muitos deles continuam passando necessidade em casa, com projetos lindos para educar os filhos dos outros, sem conseguir educar os próprios filhos. Isso não é movimento social, é autodestruição. Minha alternativa me trouxe muitos seguidores no Brasil, enquanto também fez aumentar em paralelo a quantidade de críticos. E eles muitas vezes menosprezam ou vulgarizam o debate econômico.

 

            Todos os dias, somos obrigados a nos reinventar, em função do preconceito ou da alienação que domina muitos movimentos sociais sobre as mudanças nas favelas nos últimos anos. Todos os dias, somos obrigados a nos reinventar em função dos aparelhamentos políticos que impactam a entrega de grande parte das organizações. Somos também obrigados a nos reinventar em função da total falta de diálogo e de agenda política que tenha ligação direta com os anseios desses territórios.

 

            Muito tempo já passou. A CUFA vai fazer 20 anos, em 2020, e eu já não faço mais parte dela formalmente. Aliás, eu faço, mas agora é só como voluntário.  Minha vida hoje é administrar negócios em favelas através da Favela Holding, um grupo com mais de 20 negócios. Com ela vou mantendo-os de pé e driblando o apetite do tráfico e da milícia, Brasil a fora. É que as ações na favela serão sustentáveis, se nos equilibrarmos entre a proximidade e a distância desses atores que controlam os comportamentos do lugar.

 

            Eu estou com 56 anos, já. Olho para trás e me impressiono com o que já construímos. Os exemplos que demos e o legado que vamos deixar. Só nós sabemos os desafios que encaramos. Ser vanguarda não é fácil.

 

            Não foi fácil. Mas daí olho para o presente e vejo 22 empresas sendo administradas a todo vapor, vejo uma Taça das Favelas mobilizando milhares de jovens nas favelas e vejo, finalmente, uma pauta positiva sendo imposta goela abaixo de quem torce contra o desenvolvimento da favela.

 

            Se olho para o futuro, então, as oportunidades na favela, da favela e para a favela vão para os milhões. Pois a favela não tem somente carência, tem muita potência.

 

 

 

pt.wikipedia.org/wiki/Central_%C3%9Anica_das_Favelas

www.fholding.com.br/

www.istoedinheiro.com.br/celso-athayde-e-o-empreendedor-do-ano-2017-em-impacto-social/

www.geledes.org.br/fundadores-da-cufa-celso-athayde-e-mv-bill-deixam-ong-apos-20-anos/